domingo, 23 de janeiro de 2050


Começando pelo começo...Que diabos é “tsundoku”!?

Tsundoku é uma palavra de origem japonesa que significa a ação de comprar livros e não lê-los de modo que fiquem empilhados juntos com outros livros não lidos.

Incrível como uma única palavra consegue expressar um fenômeno tão comum – quem não tem seus livros encalhados? – e ao mesmo tempo indicar uma inquietação. Por trás do significado formal de tsundoku há também essa inquietação de quem tem vários livros não lidos e se sente incomodado com isso. Isso remete ao porquê de eu ter criado esse blog.

“Xô, tsundoku!” é meu desafio de leitura. A tentativa de desencalhar os livros que estão nas minhas estantes há anos. É como se eu os ouvisse falar “Leia-nos ou te devoraremos”. O problema é que muitas vezes assumimos o papel de colecionadores de livros  e não de leitores. Se isso não incomoda a você como ‘colecionador’, tudo bem. No meu caso, isso já me chateava há tempos.



Regra de ouro


Para esse desafio funcionar eu criei uma regra de ouro: não comprar nenhum livro até concluir o projeto. Ao longo do caminho muitas indicações de leitura surgirão e hoje mesmo eu já tenho várias tentações, incluindo alguns ebooks. É por isso que criei a Lista de Desejos para, quem sabe, constituir um novo projeto... Mas há exceções! Não comprar não quer dizer que não possa adquirir algum novo livro na seção Troca de Livros ou ganhar algum de presente! 



Como funcionará

O primeiro passo foi separar fisicamente os livros lidos dos não lidos. Em seguida, separá-los em dois grandes temas: literatura (romance, contos, teatro e arte) e  “acadêmicos” (filosofia, sociologia, história, ciência política). Até os guias dos museus que visitei entraram na brincadeira. O resultado é a lista de 298 livros ! . Porém, algo importante: não há pressa. As leituras e o próprio blog terão uma dinâmica, mas não terão nem prazo nem pretensão de análises complexas. Só o prazer da leitura e a vontade de zerar os livros existentes.
Dentre os livros de literatura, alguns “apareceram” na minha estante de forma aleatória e não intencional ao longo de vários anos e não sei o que a leitura deles pode me trazer. Os livros que chamo de acadêmicos certamente serão os mais difíceis, simplesmente pelo fato de muitos deles não terem mais quase nada a ver comigo ou com um projeto acadêmico em particular. Muitos deles foram adquiridos ao longo de vários anos na condição de estudante ou quando eu tinha determinados interesses políticos. Ainda assim tentarei passá-los em revista antes de descartá-los.
Já se vê que este é um blog com data para acabar. Porém a data é incerta...

E por que o blog?

É verdade que este projeto poderia ser realizado sem qualquer publicidade, porém torná-lo público é uma maneira de me forçar a cumprir a meta. Independente da quantidade de leitores, visitantes e de críticas que o blog possa ter, na medida em que o desafio se torna público o estímulo para alcançá-lo é maior. Uma lembrança que me veio à mente quando pensava sobre o blog foi a iniciativa de Marcus Andrey para perder peso utilizando as redes sociais. Quem sabe a internet não me ajuda a tirar o peso desses livros? Ou encontro pessoas com os mesmos interesses literários que desejem trocar não só conhecimentos mas também livros? Quem sabe não dou sorte em achar gente que gosta de falar sobre o que está lendo? E, de quebra, ainda estimulo outras pessoas a darem um chega pra lá no seu tsundoku?!
Uma vez decidido criar o blog duas dificuldades surgiram. A primeira, de ordem prática: eu não conseguiria fazer um blog sem a ajuda dos “universitários”.  Ignorante em informática, recorri à ajuda de meu sobrinho, Caio que, pacientemente e com a expertise própria de sua geração, deu o formato que você está vendo. A segunda dificuldade é de ordem motivacional. Quando comentei com um amigo, que também tem um blog, ele não foi lá muito animador, “Você sabe que há mais blogs do que leitores?” E mais, segundo as estatísticas, há no mundo algo em torno de 150 a 200 milhões de blogs e deste total apenas 5% estão ativos!  
Bom, o projeto está lançado. Agora é mãos à obra e ver o que acontece!

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A coragem de resistir

Literatura ligeira”, assim definiu um amigo português um livro semelhante a este de A. J. Cronin que eu havia lido e comentava com ele. Diálogos curtos e diretos, nada rebuscado, aprofundado e estória com um propósito edificante. 

Dôra, Doralina

E justamente no dia do 107º aniversário de Raquel de Queiroz, neste mesmo dia (17/11/2017), por coincidência, eu estava concluindo a leitura de Dôra, Doralina.

Madame Bovary

Visto como o mais importante romance da literatura francesa, Madame Bovary me deixou duas fortes impressões, uma negativa e outra positiva: a negativa é o exagero nos detalhes na descrição do ambiente, da paisagem e dos personagens. Em especial na primeira metade do romance o detalhismo de Flaubert cansa. A segunda impressão é a fantástica análise psicológica dos personagens. Nestes momentos, os detalhes sobre os personagens fluem naturalmente e a leitura se torna agradável e instigante.

Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin

Arte e sociedade é considerado o primeiro livro do mundo de crítica à Escola de Frankfurt, segundo o professor alemão Gunter Karl Pressler (UFPA): "Este estudo foi publicado antes da referência sempre citada sobre a Escola de Frankfurt: 'A imaginação dialética', de 1973, do americano Martin Jay." (Folha de São Paulo, 23/08/2015).
Merquior oferece como contraposição teórica ao pessimismo dos frankfurtianos nada menos que Heidegger cuja citação inicial  deixa claro qual o rumo do seu livro: “Nenhuma época se deixa afastar por uma simples negação: a negação elimina apenas o negador."  
A angústia heideggeriana, entendida não como paralisação diante da vida, mas como busca permanente da autencidade, será a chave contra a amargura dos “críticos da cultura”.
“Com esses três elementos: determinada visão do itinerário do Ocidente (a história da metafísica), determinado modelo da autencidade humana, determinado pathos ante o futuro, o pensamento de Heidegger parece responder ao credo pessimista de Frankfurt”. (p. 175)

Além de Heidegger, na conclusão do livro Merquior indica a perspectiva da política como “arte do possível” presente no pensamento de Eric Voegelin como superação do messianismo político.

Razão do poema: ensaios de crítica e de estética

O primeiro livro de Merquior (1965) é uma coletânea de seus ensaios sobre crítica e estética como o subtítulo indica.
 Os textos de Merquior, como é sabido, são densos e, portanto, uma tentativa de resumo ou análise mais elaborada não é meu objetivo. Aqui eu destaquei apenas uma discussão que me parece interessante: o conceito essencialista da natureza humana versus conceito histórico desenvolvido no ensaio Estética e Antropologia. Ele afirma, “o conceito marxista do homem repele a interpretação de uma natureza humana que não seja rigorosamente histórica. ” (p. 211) Diante disso, qualquer tentativa de encontrar uma “natureza” humana, algo permanente e que nos define para além das variáveis sociais, políticas, econômicas, em uma palavra, históricas, seria contrário à perspectiva marxista.
Merquior ressalta que está claro que esta percepção é a predominante nos textos de Marx, porém, em sua estética, ao analisar nos Manuscritos econômicos e filosóficos como Shakespeare e Balzac descrevem as deformações no homem causadas pelo capitalismo, Marx estabelecesse “a imagem de um homem despojado de seus valores reais e tornado em puro espectro de si, emagrecido em sua própria natureza. ” (p.209) Quer dizer,  é como se Marx realmente admitisse a existência de uma “natureza humana” que foi corrompida pelo capitalismo.

“É que o marxismo aqui comparece como um historicismo arrependido: depois de proclamar a historicidade de todas as essências; depois de praticar a análise histórica mais inteligentemente que qualquer outro historicismo, depois de denunciar como “metafísica” qualquer ontologia que pretendesse escapar aos limites da História, eis que Marx e os marxistas nos acenam, para que o reconheçamos como o fundamento da arte, com esse indefinível conceito de uma “natureza” humana”. (p. 210)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Em defesa do preconceito: a necessidade de se ter ideias preconcebidas

Rejeitar o preconceito parece ser o correto a fazer, certo? Não necessariamente. Aqui Dalrymple se insurge contra a destruição de toda e qualquer ideia preconcebida segundo o argumento de que devemos "pensar por nós mesmos" . De acordo com o autor muitos "preconceitos positivos" devem ser mantidos não porque sejamos 'conservadores' ou avessos à mudança mas porque precisamos deles: 

" Temos que ter, ao mesmo tempo, confiança e discernimento para pensarmos logicamente a respeito de nossas crenças herdadas, e a humildade para reconhecermos que o mundo não começou conosco, e tampouco terminará, e que a sabedoria acumulada da humanidade é muito maior do que qualquer coisa que podemos alcançar de forma independente." p. 137

terça-feira, 27 de junho de 2017

A vida na sarjeta

A vida na sarjeta é um desses relatos que nos leva a fazer um paralelo com a realidade brasileira. O nível de degradação da subclasse (underclass) inglesa é facilmente identificável numa parcela enorme da população brasileira pobre e sem instrução.
E não só isso. Os fatores disfuncionais apontados como causa da pobreza lá, para além do discurso automático das causas econômicas da pobreza, também podem ser identificados em nossa realidade. Não podemos nos esquecer que a análise de Dalrymple é fruto também de sua experiência na América Latina e África. Também muitas das críticas às elites intelectuais de lá valem para as nossas elites.

Não se trata de defender uma importação mecânica de sua interpretação para o caso brasileiro, mas de propor um paralelo frutífero para nossas reflexões.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

É chique ser grosseiro (artigo na revista Amálgama)

https://www.revistaamalgama.com.br/05/2017/danilo-gentilli-maria-do-rosario-chique-ser-grosseiro/


O que diremos de formadores de opinião que tentam elevar a vulgaridade ao patamar de “disputa política”?

Num recente artigo aqui na Amálgama eu critiquei cineastas que promoveram a censura ao filme O jardim das aflições sobre o pensador Olavo de Carvalho. Concluía o texto afirmando que o nosso interminável subdesenvolvimento intelectual, moral e político não era obra de apenas “um lado” e que o comportamento daqueles cineastas era uma boa oportunidade de reflexão.
Passadas apenas algumas semanas, eis que a “direita” protagoniza um triste espetáculo. Eu me refiro ao apoio massivo dado ao vídeo do humorista Danilo Gentili em resposta à deputada petista Maria do Rosário.
O vídeo pode ser visto apenas como mais um golpe publicitário que aumenta a audiência e a conta bancária do apresentador. Quanto ao conteúdo do vídeo, pessoalmente eu prefiro um humor que escrache os políticos e preserve o decoro, a decência e o bom gosto. E não precisamos fazer muitas elucubrações quanto a isso; basta você comparar, por exemplo, o personagem de Chico Anysio, “Deputado Justo Veríssimo”, e mesmo o humor do Casseta e Planeta, para perceber quão grosseiro e mal-educado é o vídeo em questão.
Reconheço também, embora não use como justificativa, que a degradação nesse contexto é dupla. Só mesmo uma política tão achincalhada como a nossa para permitir esse tipo de lixo.
Liberais e conservadores, mas não só eles, deveriam ler o pensador conservador inglês Theodore Dalrymple. Ele é especialmente preocupado com a rápida decadência moral ocorrida na Inglaterra e no Ocidente de um modo geral. Dalrymple responsabiliza o freudianismo, o marxismo e autores como John Stuart Mill por estimularem um relativismo total, de modo que os valores caros às relações sociais estejam simplesmente desmoronando. Embora o autor dirija sua crítica à esquerda e aos progressistas, não nos enganemos: ela cai como uma luva no comportamento de Gentili e da manada que decidiu apoiá-lo nas redes sociais.
Eu me refiro especificamente ao capítulo “É chique ser grosseiro” do livro A vida na sarjeta: o círculo vicioso da miséria moral. Dalrymple examina como o comportamento marcado pela vulgaridade e violência praticado cada vez mais por ingleses das classes mais pobres (subclasse/underclass), mas não só elas e, em especial, por celebridades, ganha ares de normalidade nas relações sociais. Um exemplo: Dalrymple foi a Roma para uma reportagem sobre vandalismo de torcidas de futebol. O jogo era Itália X Inglaterra. Segundo ele, os 10 mil britânicos que foram ao jogo têm empregos que pagam muito bem, que exigem instrução e treinamento. No estádio ele presenciou os “típicos modos desagradáveis” das torcidas, que cantavam insultos por quase três horas contra a torcida italiana. Aos poucos com que ele pode conversar, perguntou se “Não achavam impróprio viajar 1.600 km somente para gritar obscenidades para estranhos?” Eles respondiam que achavam divertido e era também uma “libertação necessária”.
Libertação exatamente de quê? Da frustração, responderam, caso respondessem alguma coisa. A nenhum deles ocorreu que os dramas mesquinhos de suas vidas particulares não justificam uma atividade antissocial. Pensavam que a frustração era como o pus em um abscesso, melhor fora do que dentro, e recordei-me de um assassino que certa vez me disse que teve de matar a vítima, caso contrário não sabia o que poderia ter feito.
Não acredito que Gentili viva alguma frustração pessoal. Seu drama mesquinho é ganhar audiência e com ela, dinheiro. Se em nossa sociedade há quem goste do que ele faz, tanto melhor para ele. Mas o que me chama a atenção é o apoio político que ele recebeu.
Voltando à repercussão nas redes sociais, observei algumas páginas e blogs de movimentos e formadores de opinião de direita que ocasionalmente acompanho e destaquei alguns deles: “Para a esquerda: colocar dinheiro na cueca: tudo certo. Colocar papel picado na cueca: nossa, que absurdo, machista” (8 mil curtidas, 3 mil compartilhamentos). “Bundaço Fora Temer: manifestação cultural da esquerda lacradora. Passar tentativa de censura no saco: ato fascista repugnante da direita raivosa”. (8 mil curtidas, 3600 compartilhamentos). Tela do Twitter de Maria do Rosário ameaçando processar o apresentador e logo abaixo um comentário: “E o dinheiro que recebeu da empreiteira? Vai ser usado pra pagar os advogados?” (29 mil curtidas, 4200 compartilhamentos). Mais uma tela com a denúncia da deputada e vários comentários no mesmo tom (24 mil curtidas, 3500 compartilhamentos). Montagem: foto conhecida de Lula com a mão dentro da calça e a deputada sorrindo; foto de Gentili com a mão dentro da calça e a deputada chorando (16 mil curtidas, 2750 compartilhamentos). O site Catraca Livre classificou o ocorrido de baixaria e seus opositores lembram que o site tentou usar a tragédia da Chapecoense para ganhar views (15 mil curtidas, 1600 compartilhamentos). Formadores de opinião em economia, política e filosofia cujas análises normalmente aprecio, todos seguindo a manada. Finalmente, um determinado blog reconhece que o apresentador passou dos limites, “Mas em um momento em que é preciso quebrar a espiral do silêncio, atitudes desse tipo são mais que urgentes” (20 mil curtidas, 2200 compartilhamentos).
Observem que há um padrão: eu justifico o comportamento do humorista pelos erros do outro lado. Eu não o justifico por possíveis méritos inerentes ao comportamento em si, se houver. Eu sou vulgar porque você é também vulgar. É possível encontrar postura mais infantil e superficial? O que impedirá, no limite, de dizerem “o meu candidato rouba porque o seu também o faz”?
Mais uma vez Dalrymple pode ser útil. Em seu livro Em defesa do preconceito: a necessidade de se ter ideias preconcebidas, ele mencionará uma garota problemática que afirma xingar alguns professores porque não gosta deles. Ele dirá:
A ideia de que não gostar de alguém não constitui base suficiente para xingar esse alguém, o fato de relações sociais toleráveis requererem autocontrole, de viver em sociedade implicar o dever de se submeter a limites não foram noções inculcadas nessa garota como um preconceito, e agora parecia muito improvável que ela aprendesse essas coisas, e muito menos provável ainda que fosse conformar o seu comportamento a tais padrões.
Reparem que ele se refere a meninas (a garota no caso tem apenas 14 anos de idade) com pouca instrução, num contexto de família inglesa desestruturada e baixa classe social, que mal conseguem usar a língua nativa corretamente e lutam para se fazer compreender “como se fossem vítimas de um derrame”. O que diremos então de marmanjos bem alimentados que frequentaram boas escolas e tentam se passar por jovens problemáticos? O que diremos de formadores de opinião que tentam elevar a vulgaridade ao patamar de “disputa política”? Talvez eles deem de ombros e digam, cinicamente, “a esquerda me faz agir assim”.
Gentili conclui seu vídeo tentando ensinar algo edificante: “Eu pago seu salário, então eu decido se você cala ou não a boca, nunca ao contrário”. E sugere que seus apoiadores digam o mesmo a todos os políticos que tentarem censurá-los. Quem foi que disse que Gentili paga sozinho o salário da deputada? Quem concorda com ela não paga também? E mesmo que esse raciocínio fosse correto, com que direito ele manda alguém calar a boca? E mais, o direito que ele tem de falar (que nega ao outro) garante que ele falte ao respeito com quem quer que seja?
Que imbecilidades e grosserias sejam ditas por indivíduos isolados por motivos os mais diversos é algo que acontece e, se for o caso, que sejam punidos por isso. Mas quando assistimos a movimentos políticos e formadores de opinião que dizem lutar por uma nova forma de fazer política e novos ideais embarcarem nessa estupidez, é digno de pena.


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Memorial de Aires

Como havia dito em minha nota sobre Esaú e Jacó, o Memorial é bem mais atraente que aquele. Mais curto e leve - a narrativa do excelente personagem-observador, Conselheiro Aires, com a sabedoria de calar e apenas assentir com a cabeça “quando o assunto cansa ou aborrece” (p.75) - o romance prende a nossa atenção. 

Relíquias de casa velha

Uma casa tem muita vez as suas relíquias, lembranças de um dia ou outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. Supõe que o dono pense em as arejar e expor para teu e meu desenfado. Nem todas serão interessantes, não raras serão aborrecidas, mas, se o dono tiver cuidado, pode extrair uma dúzia delas que mereçam sair cá fora.” – Advertência.

Esaú e Jacó

O romance Esaú e Jacó me pareceu um “ponto fora da curva” dentre os romances de Machado de Assis. Diferentemente dos demais - mesmo da fase inicial, romântica – os personagens me pareceram imaturos e a narrativa longa e pesada. Era necessário mesmo a introdução do Conselheiro Aires na estória ?
Interessante que este é o antepenúltimo romance, quer dizer, é já a fase madura do autor.

Com receio de estar falando uma grande bobagem dei uma olhada no consagrado Machado de Assis – estudo crítico e biográfico de Lúcia Miguel Pereira.   Na página 177 ela dirá: “Sem as indagações filosóficas do Braz Cubas e do Quincas Borba, sem o tédio do Esaú e Jacó e do Memorial de Aires, o Dom Casmurro é o mais humano dos livros de Machado.” Sim é entediante, mas o Memorial de Aires me pareceu bem mais atraente!

E mais adiante, “Livro repisado, livro de velho, o Esaú e Jacó. (...) No Esaú E Jacó, não passam aquelas correntes de angústia, não ecoam aquelas interrogações que representam a maior grandeza de Machado.

Tudo está apaziguado, domesticado.” (p. 182)

Várias histórias

Advertência do autor para a presente coleção, "...há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos."
Quem se der ao trabalho de ler esta “Várias histórias” verá que a advertência é só modéstia do autor.

A cartomante:
- “a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.” P. 6

Uns braços:
- “...há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam.” P. 30
- “Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo.” P. 31

Um homem célebre:
- “Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.” P. 49

A causa secreta:
- “Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento. Olhou assombrado, mordendo os beiços.” P. 75

Trio em lá menor:
- “...os dous olhavam um para o outro, discretamente, e afinal esquecidamente.” P. 82

O enfermeiro:
- “Adeus, meu caro senhor, leia isto e queira-me bem; perdoe-me o que lhe parecer mau, e não maltrate muito a arruda, se lhe não cheira a rosas. Pediu-me um documento humano, ei-lo aqui.” P. 99
- “Os velhos lembravam-se das crueldades dele, em menino. E o prazer íntimo, calado, insidioso, crescia dentro de mim, espécie de tênia moral, que por mais que a arrancasse aos pedaços, recompunha-se logo e ia ficando.” P. 107

- Esperança, “demônio de olhos verdes”, p. 119

Mariana:
- “ A paixão dos noivos prolongou-se na vida conjugal. Quando o tempo trouxe o sossego, trouxe também a estima. Os corações eram harmônicos, as recordações da luta pungentes e doces. A felicidade serena veio sentar-se à porta deles, como uma sentinela. Mas bem depressa se foi a sentinela; não deixou a desgraça, nem ainda o tédio, mas a apatia, uma figura pálida, sem movimento, que mal sorria e não lembrava nada.” P. 130

Viver!:
- “ Deus me perdoará, se quiser, mas a morte consola-me.” P. 167
- “... é que eu represento a força dos desesperos milenários. Toda a humanidade está em mim.” P. 171 

A semana II

Repito um pouco do que disse sobre “A semana I”, mas destaco essas passagens:

Parafraseando para a passagem do ano:
- “ Não me iludis, - dirá 2018, - sei que me não amais desinteressadamente; egoístas eternos, quereis que eu vos dê saúde e dinheiro, festas, amores, votos e o mais que não cabe neste pequeno discurso. Direis mal de 2017, vós que o adulastes do mesmo modo quando ele apareceu; direis o mesmo mal de mim, quando vier o meu sucessor.” P. 3

Questão de método:
- “Eu, posto creia no bem, não sou dos que negam o mal, nem me deixo levar por aparências que podem ser falazes. As aparências enganam; foi a primeira banalidade que aprendi na vida, e nunca me dei mal com ela. Daquela disposição nasceu em mim esse tal ou qual espírito de contradição que alguns me acham, certa repugnância em execrar sem exame vícios que todos execram, como em adorar sem análise virtudes que todos adoram. Interrogo a uns e a outros, dispo-os, palpo-os, e se me engano, não é por falta de diligência em buscar a verdade. O erro é deste mundo.” P. 34

-“ Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam...Não andeis inquietos pelo dia de amanhã. Porque o dia de amanhã a si mesmo trará o seu cuidado; ao de hoje basta a sua própria aflição.” (S. Mateus) p. 55

-“Carlos Gomes continua a morrer. Até quando irá morrendo?” p. 59

- “Aí estou eu a repetir cousas que sabeis – uns por as haverdes lido, outros por vos lembrardes delas; mas é que há certas memórias que são como pedaços de gente, em que não podemos tocar sem algum gozo e dor, mistura de que se fazem saudades.” P. 65

- Redução de impostos. “Estas duas palavras raramente andam juntas; saudemos tão doce consórcio. Só um amor verdadeiro as poderia unir. Que tenham muitos filhos é o meu mais ardente desejo.” P. 67

- “Não se devem fazer visitas a desafetos; o menos que acontece é não acha-los em casa.” P. 73

- “A verdade, porém, é o que deveis saber, uma impressão interior. O povo, que diz as cousas por modo simples e expressivo, inventou aquele adágio: Quem o feio ama, bonito lhe parece. Logo, qual é a verdade estética? É a que ele vê, não a que lhe demonstrais.” P. 82

- Por que os transeuntes correm atrás de um ladrão na rua? P. 92 (boa reflexão)

- “Talvez por isso, mal os jornais dão notícia de um delito desses, o esquecimento absorve o criminoso. Não imprimam absolve; quem absolve é o júri, no caso de haver processo; eu digo que o esquecimento absorve o criminoso, no sentido de se não falar mais nisso.” P. 97

- “Os que parecem outros um dia é que estavam escondidos em si mesmos.” P. 117

A semana I

Uma vez encontrei com um leitor voraz de Machado de Assis quando eu lia suas obras para o Teatro. E ele quando me viu com o livro na mão achou estranho pois, “seu teatro além de pouco conhecido não é de boa qualidade, como ele mesmo reconhece.”

Então expliquei que meu objetivo ler toda a obra de Machado de Assis mesmo que tivesse que passar por algumas nem tão atraentes.


Pois bem, esse volume de crônicas intitulado “A semana I” (250 páginas!) é um desses que li “me arrastando”... (“A semana II” foi um pouco diferente). Eu me refiro ao conteúdo da maior parte ao relatar fatos e notícias muito específicos daquela época (entre 1892 e 1895) e que não me despertaram o interesse. Fui uma leitura interrompida várias vezes e com poucas anotações. 

Quincas Borba

Depois de ler Quincas Borba meu próximo cachorro se chamará... “Quincas Borba”, ou simplesmente, “QB” J Boa leitura!

Páginas recolhidas

Este volume, tal como diz o próprio Machado, reúne “contos e novelas, figuras que vi ou imaginei, ou simples ideias que me deu na cabeça reduzir a linguagem.” (...) Tudo é pretexto para recolher folhas amigas.”

Dom Casmurro

Segundo o escritor Raimundo Carrero, Dom Casmurro é um livro sobre ciúmes e não sobre traição.  Fiquei com isso na cabeça e quando decidi reler o clássico fiz uma lista dos ciúmes de Bentinho na medida em que apareciam no romance:
1-     “algum peralta da vizinhança” p. 103 (LXII)
2-     “dandy” p. 120; (LXXIII); p. 123 (LXXVI)
3-     Prima Justina p. 130 (LXXXI)
* Mas ele se vê alvo das belas mulheres. O que diria Capitu? Ela também não teria direito a ter ciúmes? P. 153 (XCVII)
4-     “os braços” p. 163 (CV)
5-     O olhar de Capitu, p. 191 (CXXVI)
6-     Como uma “carta”, p.197 (CXXXII)
7-     “andando e completando a semelhança”, p.199 (CXXXII)
8-     “a própria natureza jurava por si e eu não queria duvidar dela.”, p. 205 (CXXXVIII)
9-     “confusão dela fez-se confissão pura”, p. 207 (CXXXIX)
“velho ciúme”, p. 208 (CXL)

Escritos avulsos III

Iniciando com o conto ‘Casa Velha’, este volume de Escritos Avulsos, publicados entre 1885 e 1906, é o terceiro e último organizado pela editora. Além de Casa Velha gostei também de “Habilidoso” que retrata como a indução dos comentários de parentes e leigos influenciam a pessoa fazendo-a acreditar que de fato possui tal ou qual característica. O personagem tanto acreditou nas supostas qualidades que lhe atribuíam que acabou acumulando expectativas e frustrações ao longo da vida:

“Que este é o  último e derradeiro horizonte das suas ambições: um beco e quatro meninos.” p. 95

terça-feira, 30 de maio de 2017

As aflições da diversidade (artigo na revista Amálgama)

https://www.revistaamalgama.com.br/05/2017/olavo-de-carvalho-cine-pe-aflicoes-da-diversidade/



Para os intolerantes de sempre, a diversidade é bacana, mas apenas enquanto não incomoda.


É impossível deixar de notar o paralelo entre o comportamento dos cineastas que se retiraram do festival de cinema Cine PE (que acabou de ser cancelado), em protesto contra a participação do documentário O jardim das aflições sobre Olavo de Carvalho, e o comportamento de professores e estudantes da maior parte das universidades, em particular das áreas de humanas e artes.

Fica mais claro a cada dia que a ideia de uma universidade aberta ao contraditório e ao diferente é um mito. Como sabemos, o pensamento majoritário no ambiente acadêmico e entre os artistas é de “esquerda”, no sentido mais amplo possível. O mito da convivência boa e necessária dos opostos não difere quase nada tanto lá como cá, haja vista a Carta Aberta dos cineastas e suas motivações.
Quem frequenta ou lê notícias sobre festivais de cinema sabe que uma marca, talvez fundamental, desses eventos é a tão aclamada diversidade. É uma técnica inovadora, é um roteiro genial, é aquele curta boliviano ou o longo iraniano, entre tantos outros atrativos que só um ambiente aberto, plural, criativo pode propiciar. A diversidade é bacana, mas…
Conhecer o novo e o diferente é bom e necessário, mas se vai de encontro aos meus valores é melhor você ler e ficar só para você; é melhor você assistir na sua casa com seus amigos da casa grande, porque aqui no espaço público você não tem direito a ler, defender ou assistir, porque, do mesmo jeito que eu interdito as universidades para o bem maior de todos, eu também protesto e pressiono contra a exibição de qualquer filme que não passa pelos meus critérios de bem.
Não basta a forma autoritária de tratar o conhecimento, nem propor a censura diante de um “documentário conservador”. Essas pessoas vão além e destroem um dos conceitos mais caros apropriados pelo discurso da esquerda identitária e particularista: o conceito de alteridade. Impedir um conhecimento o mais integral possível, tentar censurar um filme ou documentário, opor-se a que o outro exponha suas preferências políticas é, em última análise, a negação inequívoca do outro. Mais uma vez, o apelo à alteridade é tão somente mais um mito.
Para concluir, é sempre bom explicitar o óbvio. Esse comportamento obtuso, excludente e autoritário, esse modo medíocre de ser e ver a vida não é monopólio da esquerda. Qualquer um que constatar o nosso interminável subdesenvolvimento intelectual, moral e político não pode em sã consciência atribuí-lo apenas a “um lado”. É necessário um estado de alerta permanente e estar aberto genuinamente ao livre debate de ideias, sem o que continuaremos numa guerra de torcidas, prontos a apontar o próximo erro do adversário. O aprendizado é longo, difícil, e a esquerda acaba de nos dar de bandeja uma boa oportunidade de reflexão.